Você já viveu a frustração de precisar de uma informação simples, como o número de clientes ativos da empresa, e descobrir múltiplas respostas diferentes?
Essa experiência, cada vez mais comum nas organizações, é um reflexo direto de um fenômeno que o psicólogo Barry Schwartz chamou de “Tirania da Escolha”. Em sua obra, Schwartz argumenta que, embora tenhamos sido educados a acreditar que mais opções significam mais liberdade, o efeito real desse excesso tende a ser o oposto: insegurança, ansiedade, arrependimento e, em última instância, paralisia. A liberdade absoluta não é libertadora, é limitadora.
No cotidiano corporativo, essa tirania se manifesta de forma silenciosa. A explosão de dados e tecnologias criou um cenário em que cada área de uma empresa pode definir suas próprias métricas, adotar suas próprias ferramentas e desenvolver dashboards independentes. Enquanto o Marketing considera cliente ativo quem interagiu com campanhas recentes, o Comercial olha apenas para quem comprou nos últimos meses, e o Financeiro só reconhece como cliente quem está com pagamentos em dia.
Essa multiplicidade de perspectivas, sem um alinhamento mínimo, leva a uma consequência inevitável: ninguém sabe mais, com certeza, qual número confiar. Em vez de aprimorar a tomada de decisão, a abundância de dados transforma decisões simples em disputas intermináveis por qual verdade prevalece.
O efeito psicológico é evidente. Diante de tantas fontes de dados possíveis, de tantas métricas aparentemente válidas e de tantas versões diferentes de um mesmo indicador, gestores hesitam. A procrastinação não é fruto de incompetência, mas da sobrecarga cognitiva: decidir exige escolher, e escolher exige renunciar. O medo de errar torna-se maior do que o desejo de acertar. Profissionais talentosos gastam horas discutindo dados em vez de produzir resultados com eles, e a confiança nos relatórios diminui. A inovação desacelera, o time se frustra, a empresa perde competitividade.
Esse caos não é tecnológico, mas estratégico. Ele nasce quando o acesso às informações se expande mais rapidamente do que a capacidade organizacional de dar significado a elas. Mais ferramentas não resolvem o problema e podem até agravá-lo. O que falta não é tecnologia, é clareza, padronização, responsabilidade, direcionamento. Em outras palavras, falta governança de dados.
A governança de dados surge, então, como o elemento que restaura a ordem. Sua função não é limitar o acesso à informação, mas qualificar esse acesso. Ela traz um vocabulário comum onde antes havia interpretações concorrentes. Define padrões claros para indicadores críticos, evitando discussões inúteis sobre o que deveria ser óbvio. Estabelece uma fonte única da verdade para dados essenciais, impedindo que cada área invente a sua própria realidade. E, principalmente, atribui papéis e responsabilidades para garantir que os dados tenham donos, guardiões e usuários conscientes. Com isso, uma empresa deixa de navegar no escuro e passa a operar com confiança, coerência e propósito.
Quando a governança se fortalece, algo poderoso acontece: o dado deixa de ser um obstáculo e volta a ser um catalisador. A ansiedade dá lugar à segurança. A disputa dá lugar à colaboração. O foco deixa de ser a caça por números duvidosos e passa a ser a geração de valor a partir de informações confiáveis. As escolhas continuam existindo, mas agora são escolhas informadas, e não apostas.
Combater a Tirania da Escolha, portanto, não significa reduzir a liberdade do acesso aos dados, mas garantir que ela seja exercida com lucidez. Empresas que compreendem isso cedo transformam o excesso disperso em inteligência organizada, e ganham velocidade de reação em um mundo onde decidir antes do concorrente faz toda a diferença.
Governar dados é, essencialmente, criar condições para que as pessoas decidam com confiança, sem medo, sem paralisia. É mostrar que a verdadeira liberdade não está em ter todas as opções, mas em ter as opções certas e saber usá-las no momento certo.
No fim das contas, a governança de dados não elimina escolhas. Ela nos liberta daquelas que nos levam ao caos.